quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

A invenção de ADOLESCÊNCIA...

Às vezes temos a sensação de que somos sufocados pela adolescência dos nossos filhos. Oferecem-nos constantemente doutas opiniões sobre a melhor forma de lidar com eles, somos soterrados em livros de especialistas que estudam e analisam esta fase do crescimento, ouvimos na televisão e na rádio consagradas figuras falar sobre esta candente problemática. E nós, na tentativa de sermos os melhores pais do mundo, tudo ouvimos, tudo lemos, tudo estudamos... e só conseguimos colecionar umas boas doses de desespero e de frustração porque nem de longe somos capazes de pôr em prática um milésimo dos muitos conselhos que nos caem em cima.
A adolescência é possivelmente a fase do crescimento dos nossos filhos em que mais nos questionamos sobre a forma como desempenhamos o nosso papel de pais, em que mais dúvidas temos sobre a melhor forma de agir em relação a comportamentos que nos tiram do sério, em que mais vezes nos exasperamos e deixamos as nossas emoções irem ao rubro. É a fase em que nos sentimos mais inseguros, porque num momento estamos a lidar com um adulto e no outro com uma criança e, sobretudo, porque percebemos que deixámos de ter controlo sobre a vida dos nossos filhos – e, claro, não os achamos suficientemente maduros para serem eles a tomar as rédeas dos seus destinos.
Os pais dos adolescentes de hoje também foram adolescentes – numa época em que em Portugal a adolescência era um conceito relativamente recente e em que não havia ainda muitas receitas próprias para esta fase. Nem livros, nem programas de televisão, nem psicólogos especializados. A adolescência, enquanto estádio específico, tinha uma importância relativa nas preocupações dos pais de então, e não era uma palavra que assustasse. Os adultos lidavam com a adolescência como lidavam com o crescimento em geral e não havia “apaparicanços” especiais para estas idades. Os nossos pais, os avós dos adolescentes de hoje, nem adolescentes foram – o conceito talvez já tivesse sido inventado, mas não tinha divulgação e muito menos aplicação. É claro que também tiveram 12, 13, 14, 15, 16, 17 anos, mas nessa época não havia estádios intermédios: ou se era criança ou se era adulto. A passagem de um estádio ao outro era direta e a criança tinha de fazer rapidamente o ajustamento para o ser adulto – e muitas vezes isso era feito de forma dolorosa.
A “invenção” da adolescência foi uma ótima forma de as crianças viverem a passagem para a idade adulta com uma atenção própria aos seus problemas, aos seus medos e até aos seus mundos. Mas caímos muitas vezes no exagero de transformar essa atenção numa obsessão, de olhar para esses medos como se de patologias do comportamento se tratassem, de achar que esses mundos são antros de perdição dos quais os nossos filhos poderão não voltar. De tão preocupados que estamos em responsabilizarmo-nos a nós, pais, pela adolescência dos nossos filhos, esquecemo-nos de lhes dar a eles a responsabilidade pela sua própria adolescência – e assim prolongamos-lhes a infância em vez de os ajudarmos a entrar na idade adulta.

Sorria...


Onde quer que vás estarei contigo... Eduardo Sá


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1. Não é verdade que o lugar mais desarrumado duma casa de família seja o quarto das crianças. Pior que ele – mais atulhada e sinuosa, certamente – será uma outra divisão de cada casa: a cabeça dos pais. A cabeça dos pais, ora parece um quarto de brinquedos, no sótão – onde eles se fecham, sozinhos, cochichando com os seus arrepios ou brincando com os seus botões – ora lembra uma garagem, empanturrada de caixotes poeirentos, onde o indispensável se confunde, muitas vezes, com o substituível. A diferença entre o quarto das crianças e a cabeça dos pais é que, enquanto elas têm quem as incomode e repreenda, a muitos pais parece que lhes falta um “anjo da guarda” que ponha ordem em todo o corrupio de coisas fora do lugar. E, talvez por causa disso, enquanto as crianças espalham, descontraídas, os brinquedos pela casa, muitos pais, passando de si próprios uma ideia muito arrumadinha, acumulam, vezes de mais, “macaquinhos no sótão”. O jeito que dá, portanto, um anjo da guarda!
Seja como for, não gosto da forma como os pais puxam para outras entidades a prova de vida do seu amor. É assim com o Pai Natal, por exemplo, quando se trata de alguém fazer de “abono de família”, ou com “o homem do saco”, quando se delega numa troika qualquer o mais odioso de todos os “tem que ser!”. Que sentido tem falarem dum anjo da guarda para dizerem às crianças: “Onde quer que tu vás, eu estou contigo”? E porque é que não são claros e confidenciam: “Estou um bocadinho na luz dos teus olhos e no trepidar do teu coração (mesmo quando ele se engasga e te atrapalha). E na forma, cheia de engenho, como caças duendes ou embirras com a tua professora. E, claro, no modo como procuras mistérios ou não gostas da matemática quando a avó Alice ta tenta ensinar. E estou nas tuas lamúrias. Como nas tuas manhas e, até, nas nossas manias. E, já agora, na forma como me dizes que me amas mesmo que te fiques, unicamente, por outro: ‘não gosto de ti!’. Onde quer que tu vás, eu estou contigo; mas não sou tu.” (A fórmula seria, suponho eu, mais essa.) De qualquer modo, um anjo da guarda permite que Deus não esteja em todo o lado, ao mesmo tempo. E como essa delegação de funções admite, inclusive, que as crianças tenham a quem apresentar cadernos reivindicativos, com um twist à italiana, tudo fica muito mais animado para elas porque Deus não poderia amuar, nem ficar vermelhusco, quando ralha, nem podia dizer: “Se não gostas de mim, procura outra mãe” (porque isso talvez não fosse tolerado pelo contrato de trabalho que Ele mantém com a Humanidade).
Mas se não gosto da forma como delegam nos anjos da guarda o carinho com que olham pelos filhos, não gosto, também, por outro lado, do modo como os pais consideram como “macaquinhos no sótão” todas as suas mais silenciosas inquietações. Ora, se falta aos pais quem faça de anjo da guarda eles que protestem. E que exijam, a quem olhe por eles, que “faça pela vida”. E que deixem de supor que os avós das crianças, “porque já têm alguma idade”, não devam ser incomodados com pedidos de mimo. Por acaso, anjo que é anjo envelhece? E, depois, quando os filhos põem aberturas fáceis no coração dos pais, falando por eles, os milagres não existem? Porventura alguma vez é tarde para se reclamar colo a quem sentimos que o tem para nós? Os “macaquinhos no sótão” são, portanto, uma entidade mítica com que muitos pais se desculpam para dizerem, quando ficam a matutar nos seus ressentimentos, que se desamparam a culpa não será deles. É dos macaquinhos... José Mário Branco, de forma esclarecida e arrebatadora, talvez fale desse formigueiro no coração dum jeito mais bonito. Assim: “A contas com o bem que tu me fazes, a contas com o mal por que passei, com tantas guerras que travei, já não sei... fazer as pazes.”

2. Os pais com “macaquinhos no sótão” são, muitas vezes, quase mágicos, quando dão colo, mas um bocadinho enfadonhos, como pessoas amáveis. Porque são mimalhas. Não exigem mimo – por medo de, sempre que o reclamam, não o terem – mas amuam, de desamparo, quando ninguém adivinha o seu desejo e não o satisfaz. Fazem de duendes ou de gnomos, porque se imaginam mais minúsculos do que são. E fazem de “formiguinhas da família”, talvez porque não imaginem outra forma de serem amados que não seja prestando, duma maneira generosa e incansável, bons serviços. Mas estragam-se quando aceitam, como quem encolhe os ombros, muitas coisas que os magoam devagarinho, a que chamam... “macaquinhos no sótão”. Eles sabem que perdoar é recordarmos as coisas sem que elas nos magoem. Mas, mesmo assim, moem a dor mas não a falam (e, desse modo, ela não passa). E são tantos os pequenos episódios de falta de mimo que os atormentam (e que não esquecem), que os seus gestos parecem ser sempre medrosos e assustados. Não reivindicam, de forma clara, nem abraços nem atenções e, quando damos por eles, lamuriam-se, mas não são arrebatados, engenhosos ou, simplesmente, vivos, quando nos dizem: “gosto de ti!”. E, mesmo que haja quem os queira amar, nunca parecem estar todos num mesmo lugar: retiram-se, e agem como se, de entre todas as pessoas, escolhessem, teimosamente... os macaquinhos. Na verdade, não são mimados: são mimalhas. Ou, se preferirem, são uma espécie de anjo da guarda em part time. E isso é mau!
Já os pais que fazem de anjos da guarda a tempo inteiro arrumam o quarto das crianças enquanto resmungam contra a sua falta de autonomia. E descascam-lhes as laranjas, mesmo quando indagam acerca das “boas mãos” que parecem não lhes faltar. E vão buscá-las à escola e interrompem o caminho de volta para casa só para darem um passeio ou para as verem lanchar leite com chocolate (ou com qualquer outra coisa quase tão doce como o seu amor). E contam-lhes histórias, a sério ou só pelo gosto de as inventar. E esparramam-se na cama, bem junto a elas, e tagarelam, enquanto aconchegam os lençóis. E pespegam-lhes beijos, dos grandes, bem demorados, na cabeça, antes de apagarem a luz e de dizerem “boa noite”. E, em vez do escuro, deixam, atrás de si, um rasto de estrelas, borboleteando, pelo quarto.

3. As crianças ou são mimadas ou são mimalhas. Não sendo uma coisa nem outra, são caprichosas e mal-educadas. As crianças mimalhas ficam presas nos desamparos dos próprios pais. Lamuriam-se e rezingam, que são um apelo de mimo e um “chega-te para lá”, ao mesmo tempo. É claro que elas estão sempre a tempo de se tornarem mimadas; assim os pais deixem os “macaquinhos no sótão” e se transformem em anjos da guarda, enquanto podem.
As crianças caprichosas e mal-educadas, tornam-se, elas próprias, os “macaquinhos no sótão” dos seus pais. De certo modo, “voam” mais depressa que os anjos da guarda... E, suponho eu, percebe-se porquê: talvez elas sintam, como mais ninguém, que terão pais que nunca virão a ser anjos da guarda e, sendo assim, enquanto os atormentam e agitam, iludem, de forma mais ou menos vertiginosa, esse vazio.
Já as crianças mimadas só se tornam assim porque têm quem faça, a toda a hora, de anjo da guarda só para si. E é por serem, saudavelmente, mal habituadas desse jeito que, pela vida fora, ao lutarem por quem as ame, não admitem ser ignoradas ou desconsideradas, nem magoadas com gestos desatentos. E tão depressa fazem uma birra como, a seguir, a esquecem e abraçam, de carinho, com força. E, em vez de amuarem, esganiçam-se, de fúria, antes de rirem, sem cortinas, por quase nada que pareça superlativo para os sisudos.
Benditas sejam as crianças mimadas! Aliás, não sei quem pôs a circular que ser-se mimado seria um obstáculo para se crescer. Mas, fosse quem fosse, estava enganado. Compreendo que as crianças mimadas, de tão habituadas estarem a quem as adivinhe, às vezes, pareçam molengonas. E, seja em relação aos sonhos ou às suas metas, fiquem, mimentas, à espera de quem se antecipe e fale por elas e, se for possível, dê um... empurrãozinho a tudo o que desejam. Seja como for, o mimo torna-as mais simples e mais bonitas. E, por mais que não pareça, são elas quem põe o mundo aos pinotes e o vira do avesso.
Em resumo: quanto mais mimo mais anjos da guarda e quanto melhores anjos da guarda menos “macaquinhos no sótão”. Isto é, se não fossem os macaquinhos trazerem, mais do que deviam, interferências ao mimo que nos falta, e o mundo das pessoas que nos amam seria um “exército” de anjos da guarda mais ou menos sem fim.
Escrito por Eduardo Sá, psicólogo 

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Por hoje já chega!


Adoro a Violeta- By Beatriz e Rafaela




O Pesadelo das más companhias na adolescência!


O Pesadelo das más companhias

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As «más companhias» são um dos grandes medos de quem tem filhos na adolescência, um período em que estão muito vulneráveis. Vigilância, diálogo e muita compreensão são as chaves para lidar com os problemas que aparecem.

A princípio os pais não desconfiaram de nada. Tinham chegado à praia para onde iam desde sempre e Miguel, 11 anos, apressou-se a juntar-se aos amigos do prédio com os quais brincava desde que sabia andar. Todos um pouco mais velhos – 14, 13 e 12 anos – é verdade, mas não parecia haver razões para preocupações. Afinal, conheciam-se desde pequeninos, as famílias cumprimentavam-se, os rapazes andavam sempre por ali, pelo pátio, pelas garagens, pela praia em frente, pelas casas uns dos outros. Mas pequenos incidentes começaram a alterar a ordem natural das férias. Dinheiro que ficava em cima da cómoda e desaparecia, cigarros que o pai achava que ainda tinha e afinal não estavam lá. Miguel negava qualquer participação nestes «desaparecimentos». Os pais reforçaram a vigilância. Repararam que Miguel e os amigos se «escondiam» na entrada em curva da garagem, de onde quase ninguém os podia ver, que essas reuniões eram muito frequentes e que os rapazes «desfaziam» o grupo quando alguém se aproximava. Os pais resolveram inspecionar o pequeno canto da garagem onde os rapazes se reuniam e confirmaram as suas suspeitas: o chão estava juncado de beatas. Encostaram Miguel à parede. Que acabou por confessar que tinha tirado o dinheiro e os cigarros para «dar ao Eduardo e ao Tiago», os dois mais velhos do grupo, que depois faziam demonstrações da sua experiência perante o espanto embasbacado dos mais novos, instados pelos dois mais crescidos a arranjarem o «material». Os pais de Miguel perceberam que o filho nunca tinha sequer experimentado fumar, que fornecia dinheiro e cigarros porque isso lhe dava estatuto junto dos mais velhos e o fazia sentir-se importante e membro de pleno direito do grupo. E perceberam também que o dinheiro não ia só para cigarros. Na sua ingenuidade, Miguel contou que também «derretiam» bocadinhos de umas pedras para juntar aos cigarros, o que prenunciava outro tipo de experiências para as quais o filho acabaria  inevitavelmente por ser aliciado. Miguel não foi castigado. Os pais tiveram com ele uma conversa muito séria, em que lhe explicaram que o que tinha feito era «roubar» (Miguel não achava o «crime» muito grave, já que de algum modo sentia que o que era dos pais era dele), disseram-lhe que se ele quisesse mesmo fumar (apesar de saber todos os perigos para a saúde que o fumo implica), seria preferível pedir um cigarro ao pai e, sobretudo, tentaram que Miguel entendesse que estava a ser manipulado pelos dois mais velhos e que aquilo que os unia não era propriamente amizade. Não precisaram de o proibir de estar com os outros rapazes, nem de fazer grandes dramas acerca do que tinha acontecido. Miguel acabou por se afastar do grupo de forma voluntária, talvez envergonhado pelo que tinha feito ou talvez porque tivesse percebido que tinha sido usado.

Merecer a confiança dos filhos
O incidente com Miguel pode não ser propriamente um caso grave de «más companhias». Mas poderia vir a ser, caso os pais não tivessem percebido o que se passava. Ou se os pais tivessem agido de outra maneira, ou se o proibissem de estar com os amigos. Eventualmente, o facto de ter acontecido numa idade em que Miguel ainda conta com os pais para lhe resolverem os problemas pode ter ajudado a lançar as bases para uma relação que poderá ser muito útil à medida que Miguel vai crescendo e entrando em pleno na adolescência, em que estará a escolher as companhias e a optar pelos caminhos que quer seguir por sua conta e risco.
Eva Delgado-Martins, psicóloga educacional que este ano publicou «Casa de Pais... Escola de Filhos» (Livros Horizonte), organiza regularmente encontros a que chama «Conversas com Pais», onde os participantes expõem e debatem as suas dúvidas, medos e angústias em relação à educação dos filhos. Sente que a questão das companhias (e o receio das «más») se encontra entre as grandes preocupações de quem tem filhos adolescentes, que começam a sair e a andar sozinhos. Para Eva Delgado-Martins, este é um período em que os pais têm de saber merecer a confiança dos filhos e em que não podem ter medo de expor aos filhos o que os preocupa: «Quando os pais estão preocupados e o exprimem, estão a revelar amor e preocupação com os filhos. Levá-los a refletir sobre as motivações e descobrir as razões em que se baseiam permite chamar a atenção para pontos de vista que os filhos não tinham considerado. Um clima de confiança implica que, quando têm má impressão dos amigos dos filhos, os pais exprimam a sua opinião com frontalidade. Simultaneamente devem esforçar-se por perceber os gostos e as preferências dos filhos. A confiança e intimidade fornecem uma base favorável para conhecer os amigos, as suas atividades, e permitem não bloquear o espaço necessário à experimentação social».
Saber ouvir os filhos é fundamental. Os pais têm de ter cuidado quando eles estão a falar do problema de um amigo. Muitas vezes, «o amigo» são eles próprios e estão apenas a testar os pais para saberem até que ponto podem contar com eles. Eva Delgado-Martins sugere aos pais que façam um esforço para verem os filhos e os amigos para além das aparências e que tenham paciência e contenção na forma como abordam as questões com os seus adolescentes: «É de evitar comentários mal fundamentados ou baseados em aspetos físicos, como o penteado, a forma de vestir, o uso de piercings, que criam discussões inúteis. Só se deve intervir quando houver informações factuais de confiança sobre comportamentos indesejáveis das companhias dos filhos (consumo de drogas, atitudes antissociais, etc.), altura em que se justifica discutir o assunto com eles».

Incentive-os a convidar os amigos lá para casa


Os pais devem incentivar os filhos a levarem os amigos a casa. Trazerem voluntariamente e de forma natural os amigos é sinal de que não há muitas razões para preocupações: «É muito importante e é uma forma de se desfazerem ideias erradas sobre as pessoas – às vezes um amigo cheio depiercings que para os pais é um símbolo de malfeitor revela-se uma pessoa encantadora e com uma ótima formação. Quando os adolescentes convidam os amigos para sua casa estão a dizer que confiam nos pais. Proibi-los de se darem com os amigos ou proibi-los de se vestirem de determinadas maneiras não leva a nada. Nós podemos não gostar, mas é bom que pais e filhos falem sobre os motivos de discordância. Proibir não é em geral boa opção. A proibição sistemática dificulta o diálogo e por vezes conduz à mentira. Pode até acontecer que a proibição estimule a vontade de continuar com a amizade proibida». Mas, diz a psicóloga, «se os pais perceberem que os filhos correm riscos (droga, abuso sexual, maus tratos, etc.), não devem hesitar em proibir o relacionamento e ter uma conversa franca sobre o tema baseada nos valores da família e nos valores que lhes pretendem transmitir. Nunca devemos partir do princípio de que os nossos filhos estão isentos de responsabilidades».
A crise potencia comportamentos desviantes
João Castelão, professor do Secundário numa escola dos arredores de Lisboa, está muito habituado a lidar com adolescentes, os seus problemas e as suas famílias: «A adolescência é sempre um período complicado e nos tempos que correm a adolescência dura mais tempo do que há uns anos. Precisamos de ter sempre presente que a adolescência é um período em que os jovens estão a construir-se a si próprios e nesta fase de construção são muito vulneráveis». Para este professor, os 14/18 anos são o período mais complicado, «é quando começam a ter uma grande autonomia da família e o grupo tende a ter uma grande importância, já que ao afastarem-se da família procuram outras referências, o que é importante, mas muitas vezes é aí que começam os maus comportamentos. E às vezes tem-se azar no grupo... São quatro anos muito complicados. O 8º ano é a pior fase, já não são pequenos e acham que sabem tudo. Aos 18 anos tudo melhora, começam a perceber o que é o mundo, a despertar para a vida adulta».
João Castelão sente que um adolescente está a ser negativamente influenciado «quando se desvia de um percurso que podemos considerar correto. Quando há um desvio nesse percurso eu considero que está a sofrer a influência de más companhias. E um miúdo que tem um comportamento desviante precisa de alguém que lhe diga que o entende, que o pode ajudar – os professores têm um papel muito importante nisto, é na escola que muitos miúdos passam a maior parte do dia».
A crise que vivemos potencia o aparecimento de comportamentos desviantes, acha João Castelão. Muitos jovens vivem em lares onde os dois pais estão desempregados e o ambiente é péssimo. Outros, têm mães que mal vêem, porque a falta de emprego as faz aceitar trabalhos de limpeza em grandes empresas de onde têm de sair às sete da manhã e onde só voltam a entrar às oito da noite, trabalham nas horas em que podiam estar com os filhos. «Por isso é que eles gostam de estar na escola – não nas aulas – porque é onde encontram conforto, atenção e companhia. Neste contexto, se aparecer um brigão, um dealer, será com certeza um herói e terá grande facilidade em os manipular».
Há que não fazer do assunto das «más companhias» um drama, mas toda a atenção é fundamental. Os nossos filhos estão a crescer, correm para a sua autonomia, dão os primeiros passos em direção à vida adulta... mas não deixaram ainda de ser crianças. E de precisar dos pais, da sua ajuda e, sobretudo, da sua compreensão.

SINAIS DE ALERTA

. alterações de comportamento, que ganham caráter de permanência.
. sonolência a toda a hora, não estarem ativos (podem estar a consumir alguma coisa).
. quando a família estabelece horários e eles não os respeitam (é o grupo que não deixa, que os manipula, indicia falta de controlo).
. desinteresse pelas atividades que até aí os motivavam, como a música, a dança, a ginástica, o futebol, o judo (pode ser um desinteresse motivado pelo grupo).
. irritabilidade permanente.
. grande agitação.
. tristeza profunda (não aquela tristeza pontual que os adolescentes muitas vezes mostram).
. quando começam a ser agressivos
. quando não mostram vontade de que os pais conheçam os amigos.

COMO AGIR

. é preciso conseguir comunicar, fazer com que o adolescente partilhe as suas preocupações.
. o diálogo é fundamental, é a única forma de fazer evoluir as situações de forma positiva.
. os pais têm de tentar compreender os pontos de vista dos filhos (afinal, os pais não têm de ter sempre razão), mas devem tomar de imediato medidas drásticas se tiverem razões para pensar que os filhos correm riscos (drogas, abusos sexuais, maus tratos).
. é crucial que o jovem perceba que pode confiar nos pais, que pode contar com eles para o ajudar a resolver os seus problemas. Os pais devem ser «todos ouvidos» se os filhos começarem a contar os problemas dos «amigos» - o mais provável é que seja o problema deles.
. os pais não devem hesitar em pedir ajuda especializada se sentirem que não conseguem lidar sozinhos com a situação.

Bullyng


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Os efeitos negativos, físicos e psicológicos, associados ao bullying nas crianças e jovens podem acumular-se ao longo dos anos, sugere um estudo publicado no “Pediatrics”. Os investigadores concluíram que os jovens que foram vítimas de bullying no passado apresentam uma qualidade de vida inferior, quando comparados com os que não sofreram aquele tipo de agressões. Os resultados da investigação, conduzida por especialistas do Hospital Pediátrico de Boston, nos Estados Unidos, sublinham a necessidade de uma maior intervenção e prevenção do bullying junto das crianças e adolescentes.
A investigação debruçou-se sobre dados recolhidos num estudo anterior, que envolveu estudantes dos estados de Alabama, Califórnia e Texas, e avaliou a atual saúde física e mental desses mesmos indivíduos. Os investigadores verificaram que um terço dos estudantes afirmou ter sido vítima de bullying, em determinada altura, ao longo dos anos analisados. Em geral, os alunos que sofreram bullying durante mais tempo foram os que apresentaram piores resultados na avaliação física e psicológica. Entre estes estudantes, eram evidentes sentimentos de tristeza, medo e raiva e também limitações físicas, como não ser capaz de levantar objetos pesados ou fazer caminhadas mais longas.
Laura Bogart, líder do estudo, lembra que os pais devem estar atentos a estes sinais e a quaisquer mudanças repentinas no comportamento dos filhos, sobretudo se eles pertencerem a um grupo de risco: crianças ou jovens com deficiências ou com excesso de peso, por exemplo.
http://www.paisefilhos.p

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